A aula de fitoterapia ocorrida na quarta-feira (29/03), ministrada pela prof. Wilcare Medeiros, foi extremamente rica e relevante, gerando a construção de novos aprendizados e troca de saberes sobre a temática explanada. Nesta foi possível compreender a terapêutica caracterizada pela utilização de plantas medicinais em suas diferentes preparações farmacêuticas, além de conhecer o Projeto Farmácia Viva que tem como objetivo produzir fitoterápicos, ampliando a cobertura assistencial, de modo a propiciar a conscientização da população.
É sabido que os fitoterápicos mostram-se como aliados de uma boa nutrição devido suas propriedades nutritivas e farmacológicas, auxiliando na manutenção da saúde quando utilizados corretamente. Nesse contexto, o nutricionista é um dos profissionais da saúde que pode realizar sua prescrição visando a melhoria da qualidade de vida do paciente. Entretanto, seu uso durante a gestação deve ser cauteloso, visto que alguns são contraindicados nessa fase da vida por ocasionarem efeitos adversos à gestante e ao feto. Diante disso, resolvi buscar na literatura artigos que abrangessem aspectos concernentes ao uso de plantas medicinais durante a gestação e irei expor a seguir.
No Brasil, o uso de plantas medicinais é amplamente difundido e a maior parte é comercializada sem prescrição médica. A população que utiliza estes recursos raramente informa o fato aos profissionais da saúde por acreditarem que produtos de origem vegetal são isentos de reações adversas e efeitos tóxicos. A regulamentação brasileira preconiza que medicamentos fitoterápicos possuam eficácia e segurança comprovadas, inclusive para uso na gravidez e lactação.
No Nordeste brasileiro é comum o uso de plantas medicinais na preparação de remédios caseiros para tratar várias enfermidades. Entre as mais utilizadas destacam-se: hortelã-da-folha-miúda (Mentha villosa); romã (Punica granatum); melão-de-São-Caetano (Momordica charantia); capim-santo (Cymbopogon citratus); erva-cidreira (Lip-pia alba) e alecrim-pimenta (Lippia sidoides).
Gestantes e lactantes constituem um grupo populacional que culturalmente recorre ao uso de plantas medicinais, por acreditarem que não causam danos ao feto. Porém, durante o processo gestacional, especialmente durante o primeiro trimestre, podem acontecer desde abortos espontâneos, até malformações congênitas. Erros cromossômicos numéricos são comuns durante as primeiras etapas do desenvolvimento embrionário humano, contribuindo significativamente com processos de falha de implantação e são causadores da perda gestacional recorrente em pelo menos 50% dos abortos ocorridos no primeiro trimestre.
São várias as plantas medicinais que podem causar riscos para mulheres grávidas, por estimular a motilidade uterina e provocar aborto, dentre elas babosa (Aloe ferox), angélica (Angelica archangelica), arnica (Arnica montana), cânfora (Cinnamomum canphora), confrei (Symphitum officinalis), eucalipto (Eucalyptus globulus), alecrim (Rosmarinus officinalis), gengibre (Zengiber officinalis) e sene (Cassia angustifolia e Cassia acutifolia). O sene é o laxante antranóide mais utilizado mundialmente e frequentemente utilizado em tentativas de aborto.
Produtos que possuem antraquinonas na sua composição devem ser evitados durante a gravidez, principalmente no primeiro trimestre, período em que ocorre a organogênese e onde podem acontecer malformações em períodos curtos de exposição. Esses compostos podem induzir contrações uterinas, aumentar o fluxo sanguíneo para o útero e seus anexos, ampliando o risco de perda do feto, bem como podem passar para o leite materno e causar efeitos indesejáveis, como espasmos no bebê.

Verificou-se que o gengibre causa perda embrionária acima do normal quando administrado a ratas durante a gestação. Esta planta é aprovada para o uso na prevenção de enjoos do movimento (cinetose), na dose de 2g/dia. Todavia, existem muitas divergências em relação ao seu potencial teratogênico. Alguns constituintes do gengibre são apontados como sendo potenciais indutores de apoptose em células humanas. O remodelamento do cérebro fetal e de outros de seus órgãos não deixa de ser um processo apoptótico, portanto são necessários estudos que elucidem se os constituintes do gengibre podem ou não interferir neste processo.
O gengibre possui substâncias que inibem a enzima 5-lipoxigenase e possivelmente a ciclooxigenase. Desta forma, alguns de seus prováveis efeitos adversos seriam semelhantes aos dos antiinflamatórios não esteroidais, como inibição da agregação plaquetária, redução do tempo de coagulação e surgimento de úlceras gástricas. Mulheres utilizando anticoagulantes ou em período próximo ao do trabalho de parto devem fazer uso do gengibre com cautela.
A utilização do boldo também requer cuidados pois estudos pré-clínicos realizados em ratas demonstraram significativas alterações anatômicas e nos blastocistos, bem como atividade abortiva, quando extratos de boldo foram administrados durante a gestação. O provável mecanismo para explicar o aumento da perda embrionária seria um efeito relaxante sobre a mobilidade tubária, interferindo no transporte do embrião ao útero e sua posterior implantação.
Embora a concentração dos constituintes químicos presentes nos chás seja inferior ao encontrado em extratos brutos, até o momento não há relato na literatura sobre a concentração segura a ser utilizada. O consumo de chás durante a gravidez apresenta restrições, pois levando a consideração a variabilidade individual, algumas gestantes podem ser mais sensíveis a menores concentrações do produto vegetal utilizado. Dessa forma, o grau de toxidade depende da dosagem e da fisiologia do organismo analisado.
Fonte:
CLARKE, J.H.R.; RATES, S.M.K.; BRIDI, R. Um alerta sobre o uso de produtos de origem vegetal na gravidez. Infarma, v.19, n.1-2, 2007. Disponível em: <http://www.cff.org.br/sistemas/geral/revista/pdf/10/infa10.pdf>. Acesso em: 31/03/2017.
PONTES, S.M.; SOUZA, A.P.M.; BARRETO, B.F.; OLIVEIRA, H.S.B.; OLIVEIRA, L.B.P.; SARAIVA, A.M.; COSTA, D.A.; CARMO, E.S. Utilização de plantas medicinais potencialmente nocivas durante a gestação. Com. Ciências Saúde, v.23, n.4, p.305-311, 2012. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/artigos/utilizacao_plantas_medicinais_potencialmente.pdf>. Acesso em: 31/03/2017.

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ResponderExcluirOlá Jéssica, gostei do levantamento bibliográfico sobre o consumo de plantas medicinais no período gestacional.
ResponderExcluirApesar de não haver estudos sobre a exposição, no período gestacional e durante a lactação, a várias espécies vegetais, é importante frisar os riscos prováveis para a Gestante e Lactante durante a consulta do profissional de saúde.
Já detectou o consumo de fitoterápicos ou drogas vegetais por gestantes ou lactentes? Consegue listar as espécies vegetais utilizadas?
Olá professora. Durante o atendimento nutricional com as gestantes já detectei algumas vezes o consumo de chás, principalmente de erva-doce e camomila. Após a anamnese alimentar, eu sempre procuro orientar sobre os alimentos que devem ser preferidos e evitados com o intuito de evitar possíveis riscos à mãe e ao bebê.
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